Marguerite YoucenarUm Homem Obscuro ..."De momento, a ilha inspirava suficiente confiança às aves para queelas ali se albergassem. Através da vidraça constantemente embaciadapela areia, via-as Natanael juntarem-se aos milhares num recôncavo dasdunas, todas elas cientes de que tinham que arrostar com o temporal e,ao mesmo tempo, enfrentá-lo; tinham que poupar forças e virar a cabeçapara o lado do vento, para que a aragem forte lhes não levantasse aspenas, assim, mudas e em boa ordem como um exército cercado. Quando aborrasca acalmou o suficiente para ele se atrever a sair, arrastou-seNatanael pelo chão pelo chão, mais do que andou, até ao poiso dasaves. A maior parte já andava pelos céus, a planar lá muito em cima,agradadas, ao que parecia, desse volteio que consiste em se deixararrastar pelo vento ou ser impelido por ele. As roucas gaivotas jáandavam à pesca. Mergulhando o bico naquele caldo pesado e lamacento,carregado de detritos nos sítios onde a vaga raspara o fundo. Cercetascalmas e miudinhas vogavam sem custo no dorso dos vagalhões, para logodescerem, no quebrar da onda. Alguns grupos mais tímidos haviam-sedeixado ficar, em silêncio. Natanael a rastejar pela areia não asincomodava. No outro extremo do porto que lhes servira de abrigo, viuele uma gaivota cinzenta de asas a bater. Não perfeitamente adulta, atentar na plumagem, porém morta. As asas inertes não obedeciam já auma volição vinda da cabeça ou do peito emplumado, antes cediampassivamente à vontade indigente do vento. Virou-a Natanael com ocajado. Mais não era, aquela coisa, do que a forma de um pássaro: avida que ali estivera, já não estava. À noite, no seu abrigo, ondealumiara uma candeia para se sentir menos só, apoiado num cotovelodurante um daqueles seus ataques de tosse, quedou-se a olhar vagamentepara uma mosca moribunda que, na vidraça que já não tremelicava nocaixilho, zumbia, enganada por aquela réstia de luz e de calor, deencontro ao vidro intransponível" ...
Etiquetas: Leituras